17.1.18

Mira Sorvino pede desculpas à Dylan Farrow por ter trabalhado com Woody Allen



Em 2014 por alguma razão não li a carta publicada pela filha de Woody Allen o acusando de pedofilia. Sabia da acusação mas não sabia que ela, quando adulta, havia se manifestado publicamente de forma tão contundente. 
Nunca gostei dele pelo fato de ter se casado com a enteada. Acho podre, vil, uma clara alusão à pedofilia. Não vejo os filmes dele e não vou assistir o último lançado por ele. Me recuso a dar dinheiro à um criminoso, por mais genial que possa ser como artista. 
Agora diversas celebridades começaram a se manifestar em favor à Dylan, inclusive se dizendo arrependidas de terem trabalhado com ele. 
Espero que seja o início do fim do sucesso deste homem. quem rouba a inocência de uma criança não tem direito à felicidade. 

Na carta aberta, publicada em 1 de fevereiro de 2014 em um blog do jornal New York Times, Dylan Farrow (na época com 28 anos) acusou Woody Allen de agressão sexual, crime pelo qual o diretor jamais foi condenado. 

Leia a carta na íntegra (cuidado com possível gatilho)

"Qual o seu filme favorito de Woody Allen? 
Antes de responder, é bom que você saiba: quando eu tinha sete anos, Woody Allen me levava pela mão para o sótão da minha casa. 
Ele me mandava deitar de bruços e brincar com o trenzinho elétrico do meu irmão. E me atacava sexualmente. 
Ele falava comigo enquanto o fazia, sussurrando que eu era uma menina boa e que aquele era o nosso segredo, me prometendo que iríamos a Paris para que eu estrelasse um dos seus filmes. Lembro-me de olhar para o trenzinho, prestando atenção em como ele se movia em círculos pelo sótão. Até hoje eu tenho dificuldades para olhar para trens de brinquedo. 
Até onde posso me lembrar, meu pai fazia coisas das quais eu não gostava. Não gostava como de como ele frequentemente me afastava de minha mãe, parentes e amigos para ficar sozinha com ele. Não gostava quando ele colocava o dedão da mão na minha boca. Não gostava quando eu tinha que entrar debaixo dos lençóis enquanto ele estava apenas de cuecas. Não gostava quando ele colocava sua cabeça no meu colo nu, inspirando e expirando. 
Eu me escondia embaixo das camas e me trancava no banheiro para evitar os encontros mas ele sempre me achava. Estas coisas aconteciam frequentemente, rotineiramente e tão habilmente escondidas de uma mãe que teria me protegido se soubesse o que eu achava ser normal. 
Eu achava que essa era a maneira que pais mostravam carinho às suas filhas. Mas o que acontecia comigo no sótão parecia diferente. Eu não conseguia mais guardar o segredo. Quando perguntei à minha mãe se o pai dela fazia com ela o que Woody Allen fazia comigo, eu honestamente não sabia a resposta. 
Também não sabia da tempestade que a perguntaria provocaria. Não imaginava que meu pai usaria sua relação sexual com minha irmã para cobrir o abuso que ele praticou contra mim. Não sabia que ele acusaria minha mãe de plantar o abuso na minha mente e a chamar de mentirosa por me defender. 
Não sabia que eu teria que recontar a história muita vezes, médico após médico, na tentativa de que eu admitisse que mentia em prol de uma briga judicial a qual eu não entendia. Em certo momento, minha mãe sentou-se comigo e me disse que eu não teria problema se eu estivesse mentindo - que eu poderia retirar tudo o que eu havia dito. Eu não podia. Era tudo verdade. 
Acusações de assédio sexual contra os poderosos enfraquecem-se muito facilmente. Especialistas estavam dispostos a atacar minha credibilidade. Médicos queriam disfarçar a criança a abusada. Depois que os juízes negaram ao meu pai o direito de visitar os filhos, minha mãe desistiu de continuar o processo criminal, apesar das conclusões do Estado de Connecticut - por conta do que foi definido pelo promotor como fragilidade da "vítima infantil". 
Woody Allen nunca foi condenado por nenhum crime. O fato de ele ter escapado das acusações me assombrou enquanto amadurecia. Fui vítima de sentimentos de culpa de que eu havia permitido a proximidade dele com outras crianças. 
Eu fiquei aterrorizada de ser tocada por outros homens. Desenvolvi um transtorno alimentar. Comecei a me cortar. 
E o tormento foi agravado por Hollywood. Muitos (dos meus heróis) fizeram vista grossa. Muitos acharam mais fácil aceitar a ambiguidade dos fatos argumentando que "ninguém pode dizer o que aconteceu" e fingir que nada esteve errado. 
Atores o idolatram em festas de premiações. Críticos o colocam em revistas. Cada vez que vejo o rosto do meu algoz - num poster, numa camiseta, na TV - eu só conseguia esconder meu pânico até encontrar um lugar para ficar sozinha e desmoronar. 
Na semana passada, Woody Allen foi indicado para o mais recente Oscar. Desta vez, me recuso a desmoronar. Por muito tempo, a aceitação de Woody Allen me silenciou. Era uma reprovação pessoal, como se os prêmios fossem uma maneira de me mandar calar a boca e ir embora. 
Mas os sobreviventes de abuso sexual que chegaram até mim - para me apoiar e dividir os medos de seguir em frente, de serem chamados de mentirosos, da sensação de ouvir de outros que as lembranças não são lembranças - me deram motivação para não ficar calada, para que outros saibam que não devem ficar calados também. 
Hoje me considero uma pessoa de sorte. Sou casada, feliz, tenho o apoio dos meus irmãos e irmãs. Tenho uma mãe que encontrou dentro de si mesma uma fonte de força que nos salvou do caos que um predador trouxe ao nosso lar. 
Mas outros ainda estão assustados, vulneráveis e ainda lutando com coragem de contar a verdade. A mensagem que Hollywood manda é importante para eles. 
E se fosse com a sua filha, Cate Blanchett? Louis CK? Alec Baldwin? 
E se fosse com você, Emma Stone? Ou você, Scarlett Johansson? 
Você me conheceu quando criança, Diane Keaton. Você esqueceu de mim? 
Woody Allen é um testemunho vivo da maneira como a nossa sociedade fracassa em defender sobreviventes de assédio e abuso sexuais. 
Então, imagine sua filha de sete anos sendo levada até um sótão por Woody Allen. 
Imagine se ela passa uma vida inteira sendo atingida por náusea diante da menção dele. Imagine um mundo que celebra o seu torturador? 
Imaginou? 
Agora, diga: qual o seu filme favorito de Woody Allen?

Mira Sorvino, contou ao The New Yorker em outubro de 2017 que Harvey Weinstein a assediou em 1995, no auge da sua carreira como atriz e que sentiu que foi afastada da indústria do cinema depois de ter dito ‘não’ a Weinstein. 
Em 1995 ela trabalhou com ambos em Poderosa Afrodite (com direção de Woody Allen) e ganhou o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante por sua atuação.
Ela publicou a seguinte carta aberta à Dylan na semana passada: 

"Cara Dylan,

 Alô. 
Peço desculpas por esta ser a primeira vez que eu me dirijo a você por escrito. 
Será o primeiro de vários pedidos de desculpas que farei hoje. 
Escrevo para manifestar que acredito em você e lhe dou meu apoio. Confesso que na época em que trabalhei para Woody Allen eu era uma atriz jovem e ingênua. 
Aceitei sem questionar a versão da mídia segundo a qual sua acusação de que seu pai a molestou teria sido fruto de uma briga intransigente entre Mia Farrow e ele em torno da guarda dos filhos deles. E não me aprofundei mais na situação, coisa que lamento muitíssimo. Por isso também devo um pedido de desculpas a Mia. 
 O que vou dizer a seguir não é uma tentativa de me justificar, apenas uma descrição de minha interação com Woody na época e desde então. 
Adolescente, eu guardava com carinho meu exemplar do livro de Woody "Without Feathers". 
Fiz o papel de Diane Keaton numa produção de "Sonhos de Um Sedutor" feita no meu colégio, e, como tantas pessoas de minha geração, cresci admirando os filmes de Woody. Quando eu era atriz jovem ganhei um papel dos sonhos, o de Linda Ash em "Poderosa Afrodite", e a liberdade artística que ele me deu para criar a personagem foi emocionante. 
Tínhamos uma relação amigável, mas não íntima, e ele nunca passou dos limites comigo de nenhuma maneira; eu, pessoalmente, nunca vivenciei o que agora vem sendo descrito como seu comportamento inapropriado com meninas. 
Mas isso não justifica que eu ignore o que aconteceu com você, apenas porque eu queria tanto que não tivesse acontecido. 
 É difícil cortar laços e denunciar nossos heróis, nossos benfeitores, que admiramos com carinho e a quem sentimos uma dívida de gratidão pela existência de toda nossa carreira. Decidir que, embora eles possam ser fantasticamente talentosos e possam nos ter ajudado tremendamente, acreditamos que eles cometeram atos indesculpáveis. 
Mas é nesse ponto que estamos hoje. Em dezembro telefonei a seu irmão Ronan, compartilhando com ele o que aconteceu desde que eu fui a público para falar de Harvey Weinstein. 
Contei a ele que foi uma experiência às vezes empoderadora, às vezes amarga e de partir o coração, à medida que mais e mais detalhes foram saindo sobre o mal oculto que esse homem me fez. 
Contei a Ronan que eu me senti por algum motivo mais vulnerável (se bem que grata, com certeza) quando milhões de pessoas me demonstraram apoio online, como se minha vida tivesse sido reduzida àquela vitimização. 
Falei a Ronan que eu queria saber mais sobre você e sua situação. Ele me indicou informações publicamente disponíveis sobre o caso, informações que eu lamento que nunca tinha visto e que fizeram começar a sentir que as evidências comprovavam fortemente seu relato. Que você tinha dito a verdade desde o começo. 
Sinto muitíssimo, Dylan! 
Nem consigo começar a imaginar como você se sentiu esses anos todos, vendo alguém que você denunciou por tê-la ferido quando você era criança, quando era uma garotinha vulnerável sob os cuidados dele, sendo elogiado reiteradamente, inclusive por mim e inúmeros outros em Hollywood que o elogiaram e ignoraram você. 
Como mulher e como mãe isso me deixou com o coração partido por você. 
Sinto tanto, tanto! 
 Estamos numa época e num momento em que tudo precisa ser revisto. 
Não podemos deixar que esse tipo de violência continue. 
Se para isso for preciso derrubar todos os velhos deuses, que seja. A dissonância cognitiva, a negação e a covardia que nos poupam de encarar verdades dolorosas e nos impedem de agir em defesa de vítimas inocentes, ao mesmo tempo deixando que indivíduos "amados" continuem a praticar comportamentos hediondos, precisam ser rejeitados do fundo de nossos corações. 
Mesmo que você ame alguém, se descobrir que a pessoa cometeu esses atos desprezíveis a pessoa precisa ser exposta e condenada, e essa exposição precisa ter consequências. 
Nunca mais vou trabalhar com Woody Allen. 
Eu lhe mando amor, inclusão e admiração por sua coragem durante este tempo todo. Acredito em você! 
Estou grata a você e admiro sua coragem e integridade, você, uma mulher que foi obrigada a ficar virtualmente sozinha todos estes anos proclamando sua verdade dolorosa. 
Você é uma heroína de verdade, e eu estou com você. 

Com gratidão e solidariedade, 

Mira Sorvino*

 *A carta de Mira Sorvino foi originalmente publicada no HuffPost US e traduzida do inglês pelo site brasileiro.

Até quando vamos duvidar das vítimas?

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