31.1.18

Alias Grace: triste, louca ou má? Uma série que vale a pena assistir no Netflix

Imagem: Netflix

Esta semana terminei de ver a série Alias Grace (ou Vulgo Grace), disponível no Netflix, que nasceu do livro homônimo da autora canadense Margaret Atwood, que também escreveu  O Conto da Aia,  que se transformou na série The Handmaid’s Tale.
Tanto o roteiro adaptado quanto a direção dos seis episódios são assinados por mulheres: Sarah Polley e Mary Harron respectivamente.
A série e o livro tem personagens fictícios (como o médico Dr. Simon Jordan - uma espécie de psiquiatra que tenta desvendar se Grace é ou não culpada dos crimes), mas é baseada na história real e bem documentada da empregada doméstica Grace Marks e o cocheiro James McDermott, acusados de matar o patrão,  o fazendeiro Thomas Kinnear e a governanta da casa, Mary Montgomery (interpretada por Anna Paquin), que foram encontrados no porão da casa onde viviam, ele com um tiro e ela desmembrada. As duas vítimas tinham sido amantes e a governanta estava grávida quando foi morta.
Grace e James foram condenados à morte por enforcamento, mas numa reviravolta no tribunal a pena de Grace, que tinha apenas 16 anos na época, foi convertida à prisão perpétua. 
Se a violência perpetrada por mulheres assusta e fascina até hoje (vide caso de Suzane Von Richthofen), imagine no século XIX.
Grace, interpretada de maneira impecável por Sarah Gadon, nasceu na Irlanda provavelmente em 1828, atravessou o Atlântico com a família e chegou ao Canadá em 1840, quando ela tinha 12 anos. Filha mais velha de muitos irmãos, perdeu a mãe na viagem e vivia sob o domínio de um pai violento e da pobreza até começar a trabalhar como empregada doméstica.
O crime ocorrido no dia 28 de julho de 1843 provocou grande comoção na época, havendo pessoas contra e a favor à condenação de Grace. Enquanto algumas pessoas a viam como uma assassina fria e doentia outras a enxergavam como uma vítima das circunstâncias.
Na verdade Grace jamais confessou os crimes ou negou ter cometido os mesmos, pois alegou não lembrar do que aconteceu no dia dos assassinatos. Ela foi presa junto com James enquanto eles tentavam fugir para os EUA. A real participação de Grace nos dois assassinatos jamais foi provada. 
Por causa da dúvida que pairava sobre sobre sua sanidade mental ela foi enviada para um sanatório, o Provincial Lunatic Asylum por 15 meses no ano de 1852, tendo ficado encarcerada na Penitenciária de Kingston na maior parte do tempo de sua prisão, de onde foi libertada 30 anos depois quando foi concedido o perdão. Depois da sua libertação ela se mudou para Nova York onde viveu até desaparecer em 1873.
Na parte fictícia da história contada no livro e na série, em busca por libertar Grace da prisão onde ela já cumpria pena há 15 anos, simpatizantes da jovem empregada chamam o médico Simon Jordan (Edward Holcroft) para avaliá-la e tentar fazê-la superar a tal amnésia.
Nas conversas com o jovem médico Grace conta sua vida, as inúmeras violências pelas quais passou, o machismo opressor que dominava a sociedade na época e as implicações disto em sua formação.
Enquanto ela costura uma colcha de retalhos ela conta sua vida desde a ida para o Canadá, tentando unir pedaços de sua memória. Em muitos momentos não sabemos se ela está falando a verdade, se está deliberadamente inventando fatos ou se são delírios de alguém psicologicamente frágil.
Mais importante que saber se Grace foi ou não culpada é ver como as suas relações são construídas, como questões de gênero, poder financeiro e situações imprevisíveis impactam na vida de uma menina que chega ao novo mundo de forma totalmente despreparada e ingênua para se tornar uma espécie de celebridade das páginas policias na época vitoriana.
A história da real Grace me parece com o início daquela música Triste, Louca ou Má:

"Triste, louca ou má
Será qualificada
Ela quem recusar
Seguir receita tal
A receita cultural
Do marido, da família
Cuida, cuida da rotina""


Teria sido Grace triste, louca ou má?
Jamais saberemos.

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